Entrevista a MiguelMadeira: Desfile de animais na Ovibeja é momento único para curiosos e profissionais

 “Sempre foi uma aposta da Ovibeja ter animais de grande gabarito genético, de raças autóctones e não autóctones, que têm muito trabalho de seleção por trás”. As declarações são de Miguel Madeira, Médico Veterinário, Vice-Presidente da ACOS (a entidade organizadora do evento), responsável pelo Serviço de Produção e Sanidade Animal. O Pavilhão da Pecuária tem sido, desde sempre, um grande atrativo da Ovibeja, com dois tipos de visitantes: os curiosos e os profissionais. Para ambos os públicos, a grande novidade deste ano é uma espécie de passadeira vermelha para apresentação de cada raça, ou, mais concretamente, uma aula técnica com a presença dos animais. Também as demonstrações de tosquia são um grande atrativo deste espaço porque “muitas pessoas não sabem como se obtém a lã”. A pensar nos adultos, mas também nas crianças, o Pavilhão da Pecuária articula-se com atividades do Projeto ACOS + que integra um percurso de uma Quinta Pedagógica. O Médico Veterinário fala ainda no rigor do protocolo de biossegurança e no colóquio sobre Peste Suína Africana.

 

A Ovibeja foi inovadora na apresentação ao público de um Pavilhão inteiro dedicado à pecuária, especialmente pelas características de raças alvo de melhoramento genético. 42 anos depois, este pavilhão continua a ser uma das grandes atrações da Ovibeja?

Sim, este pavilhão continua a ser muito visitado. Mesmo as pessoas menos ligadas ao meio rural demonstram grande interesse em visitar todos aqueles animais ali expostos, de várias raças. Umas autóctones, outras não. Algumas delas, embora não sendo autóctones, já estão em Portugal há muitos, muitos anos. Quase que já as podemos considerar parte do nosso património. Estou a lembrar-me, por exemplo, da Merino Precoce, da Ile-de-France, da Limousine, da Charolesa, da Angus, sendo que esta é um bocadinho mais recente.


Há dois tipos de visitantes. O visitante curioso, que não tem grande ligação ao meio rural e vai ali ver os animais, e depois há os visitantes profissionais. Com mais conhecimento, vão ver a categoria dos animais ali expostos que resultam de um esforço que, muitas vezes, tem décadas de trabalho por trás, de seleção, melhoramento, de aprimoramento deste ou daquele pormenor da raça. E quando falamos em pormenores não são só estéticos, mas também produtivos, de resistência, de adaptação ao meio onde essas raças são exploradas.

Eu costumo dizer que não há raças melhores ou piores. Cada uma tem as suas características, que estão adaptadas à sua realidade produtiva. O que o produtor tem de saber fazer é, nas suas condições, selecionar qual a raça ou cruzamento de raças que melhores desempenhos têm na sua realidade produtiva. A Ovibeja também serve para isto. Para além de funcionar como local privilegiado de informação para os visitantes mais urbanos, para perceberem melhor o trabalho que é feito no meio rural, tem também a missão de orientar tecnicamente os visitantes profissionais e os próprios expositores de animais relativamente às decisões a tomar nas suas explorações. A feira tem também um caráter formativo.

Ao longo dos vários anos, foi sempre uma aposta da Ovibeja ter aqui animais de grande gabarito genético, de raças autóctones e não autóctones, que têm muito trabalho de seleção por trás, e poder apresentar aos produtores eventuais soluções que podem adotar. E há muitos exemplos em que isso acontece.

Entre as diferentes raças expostas na Ovibeja estão as autóctones. Pode-se dizer que as raças autóctones são a grande riqueza deste pavilhão?

Como já referi, todas as raças aqui expostas são uma riqueza porque têm muito trabalho de seleção por trás. Agora, as raças autóctones são a nossa riqueza. São um património português que temos a responsabilidade de defender, preservar e melhorar sem, obviamente, menosprezar as outras raças não autóctones que também aqui estão presentes e são de grande importância para a produção nacional.

Como já disse, não há raças melhores ou piores. Há raças mais bem adaptadas a esta ou àquela circunstância. Mas, a nossa riqueza é o património genético de que as nossas raças são portadoras e que têm centenas de anos de trabalho de seleção. Um trabalho, muitas vezes, de quase seleção natural, que depois, à medida que o conhecimento foi evoluindo, fomos conseguindo aprimorar e acelerar em benefício não só do bem-estar animal, mas também do resultado produtivo na exploração.

Nesse processo de apuramento das raças autóctones, a ACOS desenvolve um trabalho de aprimoramento da raça ovina Campaniça.

Sim. A ACOS gere, desde 1987, o Livro Genealógico da Raça Campaniça.

Tal como o nome indicia, a raça Campaniça tem o seu solar de origem no Campo Branco, que é todo o território a sul de Beja, que vai desde Aljustrel até à parte norte da Serra do Caldeirão da região de Alcoutim, passando por Castro Verde, Mértola, Almodôvar e Ourique.

É uma raça criada num território difícil, com características edafoclimáticas muito desafiantes. Bem adaptada a esta realidade, de pequeno porte, tem neste contexto uma capacidade de sobrevivência e um desempenho reprodutivo e produtivo que não estão ao alcance de outras raças. E é por esta razão que ainda hoje aqui persiste.

Felizmente, a ACOS, num trabalho que já leva umas décadas, reuniu inicialmente, no Livro Genealógico da Raça Campaniça, sete criadores que representavam 1616 animais. Neste momento já estão registadas cerca 13 mil fêmeas. Não é um grande efetivo, mas este aumento representa um crescimento importante. E acima de tudo, com duas característica que defendem a raça, que são a diversidade geográfica dos efetivos e o número elevado de produtores que os detêm. Estes ovinos estão maioritariamente concentrados no Alentejo, num território disperso que abrange Mértola, Castro Verde, Almodôvar, Ourique, Beja, Serpa, Moura, Barrancos, Portel, Abela, Alcácer do Sal, embora haja criadores registados desde o Algarve até Cascais!

Uma novidade deste ano é o desfile das várias raças presentes, uma espécie de passadeira vermelha para as raças autóctones. Quer falar da importância e do interesse desta iniciativa?

A “passadeira vermelha” é, ao fim e ao cabo, levar os animais ao ringue central do Pavilhão da Pecuária e apresenta-los detalhadamente ao público. Cada Secretário Técnico terá a oportunidade de apresentar os animais da raça que tutela. Parece-nos uma iniciativa muito interessante do ponto de vista formativo e informativo porque ajuda os visitantes a perceber o animal e o património genético que têm em presença, bem como o enorme trabalho diário, dos criadores e dos técnicos, subjacente a esta seleção. Uma espécie de aula técnica com a presença dos animais,

Este ano vamos ter a representação de raças autóctones enriquecida porque, para além das habituais, juntam-se as provenientes da região convidada, as Terras de Trás-os-Montes.

A região convidada vai trazer bovinos da raça Mirandesa, ovinos das raças Churra Badana, Churra da Terra Quente, Churra Mirandesa e Churra Galega Bragançana, caprinos das raças Preta de Montesinho e Serrana, Porco Bísaro e burros da raça Mirandesa.

Que outras atividades podem ser acompanhadas no Pavilhão da Pecuária?

Além da exposição dos animais, temos a presença de uma grande diversidade de empresas e associações ligadas à produção animal.

Para além disso, temos as já habituais demonstrações de tosquia, que são sempre uma atividade muito apreciada pelo público. Muitas pessoas não sabem como se obtém a lã. Temos aqui a oportunidade de explicar que, do processo de tosquia até à manta ou ao casaco, há um longo processo, sendo a tosquia uma etapa muito importante de todo este percurso.

Além disto, há concursos das raças ovinas Merino Branco, Merino Preto, Campaniça, Suffolk e Merino Alemão e do Porco Raça Alentejana.

Este espaço é também aberto às crianças. E articula-se com atividades relacionadas com projeto ACOS +. Este projeto tem como missão sensibilizar os mais novos e os seus educadores para os temas do meio rural. E surge porque percebemos que há um distanciamento cada vez mais preocupante entre as novas gerações e as atividades rurais. Embora seja uma experiência em pequena escala, fazemos questão de o apresentar em todas as edições da Ovibeja porque sabemos que é uma iniciativa muito apreciada e que vai “fazendo escola”.

Ainda neste âmbito, vamos ter também uma Quinta Pedagógica com um roteiro de atividades articulado com o Pavilhão da Pecuária.

No Pavilhão da Pecuária vai também ser realizado, no dia 3 de maio, o 6º Encontro de Pastores, organizado pelo Clube Cinófilo do Alentejo.

Miguel Madeira é médico veterinário, responsável na ACOS pela sanidade animal. Que procedimentos fazem parte do protocolo na receção e acompanhamento dos animais no decorrer da Ovibeja?

A questão da biossegurança é um assunto muito atual. A concentração de animais de várias origens, num mesmo espaço, tem riscos. Principalmente no contexto que vivemos atualmente, com a preocupação crescente das doenças emergentes ou reemergentes, como por exemplo a Dermatose Nodular Contagiosa dos Bovinos e a Peste Suína Africana, ambas já presentes em territórios muito próximos de Portugal.

Portanto, temos que ser rigorosos com as questões sanitárias dos animais expostos na Ovibeja, precisamente para proteger as explorações pecuárias dos nossos expositores.

O nosso protocolo sanitário cumpre escrupulosamente o que a lei exige, nomeadamente no que respeita ao estatuto sanitário das explorações de origem dos animais presentes na Ovibeja, bem como no que diz respeito às medidas de biossegurança implementadas no nosso recinto, de que são exemplo a limpeza, lavagem, desinfeção e desinsetização das instalações, dos equipamentos e dos veículos de transporte de animais

A Ovibeja é também um importante palco de colóquios e seminários sobre assuntos da atualidade. A sanidade animal é um dos temas presentes?

Sim, vamos ter um colóquio intitulado “Peste Suína Africana – Ameaças e Constrangimentos” organizado em parceria pelo Clube Português de Monteiros, pela Ordem dos Médicos Veterinários e pela ACOS.

Neste colóquio, para além da Peste Suína Africana, serão abordadas também outras doenças emergentes e o risco que representam para a produção pecuária portuguesa.

Este tema das doenças emergentes ou reemergentes é um assunto muito atual, não só pelo que já “sofremos na pele” em anos recentes com a doença da Língua Azul e com a Doença Hemorrágica Epizoótica, mas também pelas diversas ameaças que estão a aproximar-se do nosso território, como por exemplo a já referida Peste Suína Africana, a Dermatose Nodular Contagiosa dos bovinos, a Varíola Ovina e Caprina, a Peste dos Pequenos Ruminantes e a Febre Aftosa, esta última com focos recentemente registados na Grécia e no Chipre.

Portanto, nas atuais circunstâncias, deixamos o apelo a todos os intervenientes em atividades com animais de interesse pecuário e cinegético, para terem cuidados redobrados na adoção de medidas de biossegurança, a bem da salvaguarda da produção nacional.

284 310 350 (*) [email protected] /acosassociacaodeagricultoresdosul